domingo, 21 de julho de 2013

Medicina e SUS

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Aumentar a graduação em medicina é resposta para o SUS? 
Notícia disponibilizada no Portal www.cmconsultoria.com.br às 00:19 hs.
19/07/2013 - Biomédica, é professora titular da Universidade Federal de Sao Paulo (Unifesp) e presidente da Sociedade Brasileiro para o Progresso da Dincia ISBPQ

A tendendo parte das manifestações que tomaram as ruas das principais cidades do país nas últimas semanas e têm entre as principais reivindicações a melhoria na saúde e na educação, a presidente Dilma Rousseff lançou, por meio de medida provisória, o Programa Mais Médico. Entre os principais objetivos do projeto está o aumento do tempo dos cursos de medicina de seis para oito anos e a determinação de que os estudantes trabalhem dois anos no Sistema Único de Saúde (SUS) antes de receber seu diploma.

A intenção — melhorar a formação dos médicos—tem merito, mas a forma como o Programa Mais Medico foi elaborado, não. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) entende, em concordância com as instituições de ensino de medicina e as associações que representam os médicos do país, que o govemo elaborou o programa sem discussões com as partes envolvidas. O Mais Médico é uma tentativa de resolver o problema da saúde no Brasil de cima para baixo, por meio de medida provisória, e para nós, esse não é o melhor caminho.

Atualmente, os cursos de medicina já preveem no currículo a atuação dos estudantes no SUS, incluindo as Unidades Básicas de Saúde (UBS). Em alguns programas, esse envolvimento se dá desde o primeiro ano de graduação. Ainda nessa perspectiva, o projeto não leva em consideração que o atendimento no SUS vai desde o domicílio do paciente, passando por UBS, até o serviço hospitalar terciário e quaternário.

O Mais Médico ainda ignora que o SUS não é composto apenas por médicos e que na gênese prevê uma equipe multidisciplinar para o atendimento integral à saúde, articulando também enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos e vários outros profissionais. Conceito esse que é, inclusive, ensinado aos estudantes de medicina e demais profissionais da saúde desde o ingresso na universidade. Então, por que a escolha apenas para o curso de medicina?

Contudo, a SBPC acha importante o estágio dos médicos no SUS, mas depois de formados e não durante a graduação. Defendemos a criação de uma carreira em saúde para todos os profissionais no SUS, a exemplo da Inglaterra. A premissa que parece estar por trás da iniciativa do governo - de que o problema da saúde pública no Brasil será resolvido só com o aumento do número de médicos — é enganosa. A solução é mais complexa.

Não se oferece saúde de qualidade apenas com médicos. A SBPC defende que é preciso dar aos profissionais condições adequadas de trabalho, com boa infraestrutura e planos de carreira. Para isso, e para que o país possa oferecer à população um serviço de saúde digno, são necessários mais investimentos no setor, sem esquecer a melhoria da gestão dos recursos e dos próprios profissionais.

Esperamos que essas questões — em especial a da ampliação do tempo de formação na graduação—sejam amplamente discutidas com todos os atores pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que, conforme previsto na medida provisória, terá 180 dias para emitir parecer.


Autor(es): Helena Boncianinader 

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