domingo, 28 de julho de 2013

Sexo e vício

Vício em sexo é real?


Por  em 25.07.2013 as 13:00
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Na versão recentemente atualizada de sua influente caderneta de saúde mental, a Associação Psiquiátrica Americana incluiu novos transtornos como compulsão alimentar e acumulação compulsiva, mas deixou de fora o vício em sexo.
Profissionais de saúde mental não concordam quanto à identificação, classificação ou tratamento do vício em sexo, formalmente conhecido como transtorno hipersexual, e um novo estudo desafia se esta condição, difícil de ser categorizada até para os profissionais da área, pode realmente ser chamada de vício.
A nova pesquisa sugere que quando as pessoas com sinais de desordem hipersexual olham para imagens pornográficas, elas não apresentam o padrão de ondas cerebrais tradicionalmente associado com um vício.
A pesquisadora Nicole Prause, psiquiatra da Universidade da Califórnia (UCLA), EUA, e seus colegas de estudo recrutaram 39 homens e 13 mulheres que possuíam dificuldades para controlar seus hábitos de ver pornografia, com diferentes graus de severidade. “Por exemplo, alguns participantes apenas queriam ver menos pornografia, outros tinham problemas com o cônjuge e, nos casos mais extremos, essa condição resultou na perda do emprego”, conta Prause.
No estudo, os participantes foram apresentados a uma série de imagens, incluindo um conjunto que apenas insinuava sexo e outros que mostravam a penetração explícita, todos misturados com mais fotos que não se destinavam à excitação sexual, como uma foto de um corpo mutilado ou alguém preparando alimentos.
Os pesquisadores usaram a eletroencefalografia (EEG), uma técnica não invasiva que usa uma espécie de capacete de eletrodos para medir as ondas cerebrais, para observar os padrões de atividade dos neurônios dos participantes durante cerca de 300 milissegundos após a exibição de cada imagem. Em estudos anteriores, as ondas cerebrais de viciados em drogas aumentou nesse período de 300 milissegundos (ou p300), quando foram mostradas imagens de equipamentos ligados a drogas.
Se as pessoas que tinham problemas com pornografia e estavam à procura de imagens sexualmente explícitas mostrassem atividades cerebrais similares ao p300, isso poderia sugerir que seus hábitos excessivos são comparáveis à dependência de drogas. Entretanto, a equipe de Prause não encontrou qualquer padrão.
“Não houve picos de ondas cerebrais no período de 300 milissegundos associados a problemas mais graves com estímulos sexuais. O fator que melhor previu uma forte resposta a essas fotos foi ter uma alta libido”, explica Prause.

Porém, se isso não é vício, o que é?

Segundo Rory Reid, psicólogo e pesquisador que também trabalha na Universidade da Califórnia, mas que não esteve envolvido no estudo, os resultados não desconsideram os problemas reais das pessoas com distúrbio hipersexual, mas sim, desafiam se uma hipótese de dependência é a melhor explicação para o comportamento hipersexual.
Reid participou de um estudo em outubro passado que descreveu as pessoas com transtorno hipersexual como tendo fantasias sexuais recorrentes e intensas, impulsos sexuais e comportamento sexual que duram pelo menos seis meses e interferiram na vida, causando malefícios que não são ocasionados por outros fatores como drogas ou outros transtornos mentais.
Porém, o comportamento de uma pessoa hipersexual não é de forma intrinsecamente anormal como é em outros transtornos, como a pedofilia. Por esse motivo, alguns pesquisadores argumentam que o diagnóstico do vício torna patológico um impulso sexual normal. De acordo com Reid, figuras públicas como Tiger Woods, que procuram tratamento para dependência de sexo em clínicas especializadas (e caríssimas), fazem pouco para dissuadir a opinião pública de que o diagnóstico é mais do que uma desculpa para trair sua parceira.
Esse estudo destaca que chamar o transtorno hipersexual de “vício em sexo” pode ser prematuro. A pesquisa de Prause não teve como objetivo colocar em xeque a legitimidade dos problemas relacionados com a desordem hipersexual e ainda há muitas perguntas sem resposta sobre o assunto.
Futuras pesquisas podem mostrar que essas características podem ser mais adequadamente descritas como um transtorno compulsivo ou uma sensibilidade à recompensa, projeta Reid. O circuito de recompensa do cérebro é responsável pelas sensações de prazer que o ser humano experiencia ao tomar sorvete ou usar uma droga que vicia.
Especialistas indicam que houve outras limitações na nova pesquisa, tal como uma amostra restrita. Um conselho institucional proibiu os autores do estudo de utilizar pacientes em tratamento para dependência de sexo, temendo que a exposição a estímulos sexuais poderiam causar uma recaída.
Em vez disso, Prause e seus colegas usaram anúncios para recrutar pessoas na comunidade de Pocatello, no estado de Idaho, local onde, segundo fontes locais, muitas pessoas tinham problemas com seus hábitos pornográficos. Os cientistas do estudo afirmaram que essas pessoas recrutadas possuíam resultados semelhantes em uma escala de compulsão sexual que os pacientes com problemas típicos hipersexuais.
Segundo Rory Reid, os pacientes hipersexuais, no entanto, muitas vezes enfrentam problemas que vão além da pornografia. Enquanto muitos relatam problemas com o erotismo, alguns pacientes não podem deixar de visitar prostitutas e outros não conseguem se controlar quando o assunto são amantes.
Reid, porém, elogiou Prause e sua equipe por trazer mais informações para o debate sobre o que está por trás do chamado vício em sexo. Ele espera que um dia seja possível criar um modelo cientificamente testado para o distúrbio, que ajudaria os médicos e psicólogos a melhor abordá-lo.
“Se conseguirmos desenvolver uma teoria coerente para explicar esse fenômeno, então essa teoria também pode nos ajudar a desenvolver tratamentos”, espera Reid.
Prause enfatiza que estes são os primeiros resultados de ondas cerebrais já realizados sobre o assunto. Ela lembra que o estudo facilmente pode e deve ser replicado por outros cientistas para confirmar as descobertas. A pesquisa foi detalhada online em 19 de julho na revista Socioaffective Neuroscience and Psychology. [Live Science]

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